É cedo demais

Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.

Miguel Esteves Cardoso – Amigos para sempre.

Começa assim uma das crónicas de Miguel Esteves Cardoso com que mais me identifico entre as centenas de textos dele que já li e que sempre que a reencontro me faz lembrar os meus bons amigos. Saberão vocês que nasci em Espinho e lá vivi até aos meus 30 anos. Não saberão, no entanto, que Espinho é uma terra pequena, propícia à amizade e à proximidade entre os seus. Eu posso confirmar-vos que assim é. Nesses 30 anos e mais uns 10 que levo em cima construí amizades que sei que durarão para toda a minha vida, pese embora o distanciamento e a pouca comunicação entre os amigos da terra. Há pessoas que o acham estranho, mas eu sinto de cada vez que estou com esses amigos a sensação boa de um retorno a casa, não de um reencontro, mas sim de continuidade. É assim com um conjunto de amigos aos quais poderia chamar de irmãos. Não são muitos, mas são bons.

O Peixoto é um desses grandes amigos. Não me recordo sequer de quando o conheci, acho que antes de ter consciência de mim mesmo já o conhecia, as nossas mães são amigas e o Peixinho foi colega de primária do meu irmão. Fizemos de tudo juntos. Noites de copos, roubamos fruta no quintal do Padre Manuel, fizemos bons jantares, uma festa de carnaval a rodopiar por todas as festas da cidade (depois de não nos deixarem entrar numa festa de amigos) que acabou na sede da campanha do Freitas, acampamos, servimos os dois num bar da Spinus, dançamos, percorremos quilómetros para ir ter com miúdas que conhecíamos nas matinés, jogamos voley, boas conversas, festejamos bons momentos e sofremos juntos situações complicadas, enfim… crescemos juntos e construímos uma daquelas amizades de que vos falava atrás.

Há umas horas atrás o sacana do coração do meu amigo (era um coração enorme) deixou-o mal e não conseguiu resistir. O Peixoto deixou-nos cedo demais e eu não consigo perceber onde está a justiça de nos levarem os Amigos assim tão cedo. Nem para um último abraço, para um último copo, tive tempo.

Um abraço enorme, meu grande amigo! Estarás sempre por perto!

Aproveito para deixar à Zé (uma segunda mãe) e à Gabi um enorme beijo e a maior força do mundo neste momento difícil!

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Uma resposta to “É cedo demais”

  1. Carlos Azevedo Says:

    Tenho essa crónica guardada. Perto do final, escreve o MEC: «O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo». Infelizmente, assim é, e o tempo nem sempre é tão longo como desejaríamos. Um abraço.

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