Da realidade das coisas

Entristece-me profundamente o clima político do meu país. Não é coisa de agora. Entristece-me desde que comecei a ler as actas das primeiras assembleias republicanas (e também algumas que li das Cortes da Monarquia Constitucional que agora estão finalmente disponíveis online) por motivos académicos. Em muitas delas percebe-se a pouca capacidade de alguns dos políticos que nos têm (des)governado ao longo do últimos séculos. Será justo dizer que também constam destes documentos testemunhos de pessoas extraordinárias nos diferentes quadrantes políticos, mas infelizmente são sempre em menor número. É um facto que em Portugal o descontentamento com a classe política é crónico e a culpa deste facto só pode ser atribuída, na minha opinião, às fraquezas constantemente demonstradas pelos seus representantes.

Hoje vivemos problemas graves no país. O desemprego aumenta a galope. A economia não dá sinais de recuperação e mesmo sabendo que a nossa situação é diferente da Grécia (rico elemento de comparação que arranjamos) está numa situação penosa. Indústria e Agricultura nem sinal. Educação em constantes reformas estruturais desde a primeira reforma estrutural depois do 25 de Abril que foi a inclusão da PGA (quem se recorda) para o acesso ao ensino superior. Gastamos milhões na saúde e os resultados são péssimos. A Cultura é esquecida constantemente com a argumentação simplista sobre as dificuldades do Estado e as crises económicas (melhor seria dizer a crise económica, porque penso que ainda não saímos dela desde o século XVIII). A máquina do Estado continua gigante e arrogante, centrada num umbigo cheio de cotão que ninguém tem a coragem de limpar. E assim continuamos nós, atentos ao futebol nacional, à campanha da selecção e ao ruído produzidos pelos mediáticos casos de justiça e política que vendem bem. Culpa nossa, por certo. Se não se vendessem tão bem, certamente que nos preocupávamos e centrávamos atenções naquilo que realmente importa.

Não quero com isto dizer que apurar a verdade dos factos no caso em que se vê envolvido o Primeiro Ministro não seja importante. Claro que é. Depois de ler o Sol não deve haver alma que não tenha ficado preocupado com o seu conteúdo. No entanto, o que vemos é Sócrates contrapor apenas com questões de forma, esquecendo completamente o conteúdo das escutas. E sejamos claros, todos os governos têm essa tentação de controlar a informação que é veiculada sobre as suas falhas ou sucessos, mas este foi, na minha opinião, longe demais nessa tentativa e usou poderes do Estado para o fazer, segundo o que se lê no Sol. Infelizmente para nós continuamos assim.

Entristece-me a realidade das coisas. Entristece-me ver Portugal governado assim. Entristece-me não vislumbrar alternativas possíveis (eu acho que há alternativas, mas sou parte de uma minoria impossível). Entristece-me ver um país capaz acorrentado. Entristece-me ver o povo acomodado.

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