Tentativa

Eram cinco e meia. Tardava a atenção do empregado e a necessidade de repor níveis de cafeína fazia com que o tempo que o empregado demorava a olhar na direcção dele, parecesse uma linha temporal de um museu de pré-história. Estava num café na baixa a aguardar por um telefonema importante que o deixava ansioso. Na mente ecoavam as palavras lacónicas da Inês na noite anterior: “amanhã falamos a sério sobre tudo!”

Que queria ela dizer com aquilo? Falar a sério costuma querer dizer que fiz alguma asneira sem o ter percebido. Será que descobriu o meu segredo? Toda a gente tem um segredo, pelo menos, que não quer que ninguém conheça. Vida triste a de quem não tem algo que é só seu. Não precisa de ser escraboso. Não é necessário um assassinato ou uma traição. Basta apenas ser um segredo seu, apenas seu, para que a perspectiva que alguém o descubra seja assustadora. É semelhante a entrar num café completamente nu. Todos sabemos que para além de ser humilhante, é ridículo. E as coisas ridículas têm esse grave problema, são rídiculas!

Aquela situação criava-lhe ansiedade e uma sensação estranha de culpa. Até a senhora do lado, com uma chávena cheia de vinho branco da casa, lhe parecia ser digna de lhe apontar o dedo. Algo na forma elegante e, ao mesmo tempo, decadente como pegava na chávena e bebia um pequeno trago fazia-o imaginar uma vida cheia que num momento foi estragada. Uma fuga no altar não lhe parecia possível. Teria sido uma traição? A morte? E essa vida fazia-a maior. Permitia-lhe apontar em riste o dedo. “És culpado!”

“Boa tarde! Que vai ser?” Interrompe o empregado, que finalmente presta atenção à sua mesa. Era apenas um café e um quarto de água. Ao natural. É estranho que mesmo preocupados teimamos em manter o cuidado de fazer pedidos muito específicos. Dizem-nos que são rotinas que fazem o nosso mundo e, em momentos de tensão – era evidentemente o caso – funcionam como calmantes. E sempre é melhor isso do que uma caixa de xanax em permanência na carteira.

Perdido nestes pensamentos nem sequer dá conta da chegada da Inês. Um efusivo “olá!” seguido de um beijo, deixa-o ainda mais intrigado.

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2 Respostas to “Tentativa”

  1. karla Says:

    Tentativa aprovada.
    Espero o desenrolar da acção, para perceber porque raio a senhora do lado bebia vinho branco por uma chávena. E o que queria dizer a Inês. Sou muito cusca!!! 🙂

  2. Bilhas O Bom da Fita Says:

    🙂 um dia destes continuo a tentativa!

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