302

Hoje recebi um telefonema de um colega de universidade que me lembrou desses velhos tempos em que a capa e batina eram o traje oficial da desgraça nocturna. Sim… o Bilhas fazia parte dos universitários a quem a tia comprou o belo do traje e, portanto, usava-o nas pândegas e nalguns dias invernosos em que a bendita capa servia para aquecer a caloira que caía na cantiga do bandido.

Naqueles tempos (que já estão longe como o caraças) havia três poisos quase obrigatórios… a casa do Vila Pouca (um transmontano de gema), o S. Lázaro (que era o café habitual) e o 302 (ok… de vez em quando também íamos à universidade… lá calhava).

O 302 era um apartamento alugado, desde tempos imemoriáveis, a rapaziada de Aveiro. Ficava ali perto das fontaínhas (o que dava um acesso incrível à folia S. Joanina) e tinha a grande vantagem de ser perto da Universidade e de ter em frente a Pensão Monte Sinai (o que um gajo não se divertia com os pecadores da Monte Sinai). Para além disso era a “casa” de alguns dos melhores amigos que um gajo pode ter. Eu tinha uma espécie de acordo comercial com a rapaziada a que chamavamos “aluguer de sofá” e que me permitia passar dias e dias sem ver a terra do coração e os meus queridos pais. Não morava lá, mas por outro lado, morava!

Não havia farra que não tivesse a devida preparação mental e estágio no 302. Se era dia de Serenata na Queima, os primeiros copos de sábado eram entornados no 302. Se por acaso algum de nós fazia anos, tungas… 302! Se havia uma viagem da rapaziada para qualquer lado (visitas de estudo, férias (co, cof) desportivas, visitas a colegas, viagem de finalistas, jantar de curso fora do Porto, etc.) lá estávamos nós a tratar da devida preparação mental. Quem foi estudante sabe como as viagens de estudo precisam de uma preparação mental com afinco, não é!?

Na viagem de finalistas, depois da devida preparação mental, fizémos o autocarro que nos ia levar ao Aeroporto da Portela esperar por nós quase uma hora. Tudo porque um certo artista não encontrava o relógio e a moca deu-lhe para o procurar como se tratasse de um Rolex. Fomos quase crucificados por um conjunto de catraias de letras que tinham o mesmo destino que nós e que vieram, posteriormente, a arrepender-se amargamente de nos tratarem tão mal.

A despedida do 302 foi uma das noites mais inólvidáveis que passei. Fenomenal é a palavra certa… se bem que inenarrável também se aplica na perfeição!

Acabo este post com uma dedicatória deixada lá uma vez por esse grande ícone da música popular portuguesa que é o Quim Barreiros:

“A toda a malta do 302, com um grande abraço do amigo…”

E agora substituo o “Quim Barreiros” por um saudoso de uma borga daquelas “Hanguy”!

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8 Respostas to “302”

  1. Miss Detective Says:

    que post tao alegremente saudoso!

  2. Miss Detective Says:

    há saudades que nos sabem bem

  3. Bilhas O Bom da Fita Says:

    🙂 é bem verdade MiSs… bem verdade! E estas sabem do melhor!

  4. Sérgio Vieira Says:

    Caro Amigo e Companheiro de aluguer de sofa,

    Há muito tempo que acho que faltava a devida homenagem ao velho e saudoso 302.
    Estava a ler o post e de repente vi e ouvi dezenas e dezenas de cenas. Quanto mais escrevo mais me custa acertar nas teclas tal é a quantidade de cituações, de facto inenarraveis, que se soltam da minha memória.
    Ele era o Juca e o Manaca (que vi este fim de semana), o Senhor Chulo, o Monte Sinai, o cromo que entregava os panfletos e tinha a voz anasalada, o outro cromo do Ferrari, isto para não falar dos chinos e do negro das oficinas. Aquilo tudo junto dava cá um filme…
    Fica também o grande abraço aos senhorios: Manaca; Kay Sara; Bez e Péris.
    Abraço

  5. Bilhas O Bom da Fita Says:

    🙂 Faz falta sim senhor, meu caro amigo essa devida homenagem! Acho que temos de ser os dois a fazê-la… que me dizes uma janta da velha guarda em Setembro?… O Senhor Chulo era um gajo às direitas! eheheeh grandes tempos!

    Tava com esperança que lesses a coisa, man!

  6. Kay Sahra Says:

    Grande Hanguy,
    Um gajo vê um post destes e até borra-se… de emoção.
    As noites (e os dias) só não foram mais inolvidáveis porque há muita coisa que a rapaziada já não se lembra… ou pelo menos não se lembrava no dia a seguir à respectiva noite.
    Valha-nos a memória colectiva, no meio de tantos, há sempre um ou outro que se lembra de um bocadinho, depois é só fazer o puzzle e logo se vê.
    Temos que dar entrada do processo de classificação do 302, como imóvel de interesse cultural. Em seguida metemos os papéis para a beatificação.
    Um abraço.

  7. Bilhas O Bom da Fita Says:

    Quem se borra de emoção, meu caro amigo Kay Sahra, sou eu a ler os vossos comentários! Um gajo chega de férias e depara-se com isto… é fabuloso! Vocês são o que se chama uns amigalhaços do caralho, man! 🙂

    A ideia do blog do 302 é muitoooooooo à frente! Tenho que tratar disso com urgência!

  8. srvieira Says:

    Ganda Kay e Hanguy,

    De factos foram bons, muito bons esses tempos…
    Há momentos, que hoje mais parecem monumentos, perpretados nas nossa memórias, que nos unem incondicionalmente.
    Há coisas que de vez em quado me lembro e conto a pessoas que fui conhecendo, que tenho noção que nos acham completamente anormais. Até eu por vezes tenho dificuldade em acreditar que aquela sala esteve dois anos sem vidro, porque alguem, há sempre um alguém, que estava a jogar setas nas sanefas e ups, uma foi mais abaixo.
    Vou deixar alguns pontos altos para caso se lembrem ainda das histórias, as escreverem no futuro blog:
    Hanguy à espera para entrar e o despertador da aparelhagem a tocar.
    Confecção de gelo para acertar nas iluminações de S. João.
    A última noite…é melhor não.
    Os chinos.
    O roubo da televisão do Bez, e a bola branca…em primeira edição.
    the most beaufifull watch in the world e a noite anterior, incluí o vizinho a perguntar se queriamos que chamasse a moina.
    Os desenhos na parede e o arquivo de O JOGO.
    O Poster do gande Quim.
    A chegada do Carlos Brito com os mafias dos pendões.
    A mega multinacional de colocação de pendões e o candidato a primeiro ministro.
    A contratação do Filipovic para o Beirinha.
    As gajas para a FAP.
    Bem já chega, não me recordo dos promenores, mas em reunião havemos de conseguir lá chegar.

    Abraços

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