Dias de Verão na terra onde as ruas não têm nome…

Começavam, quase sempre, com a entrada da mãe no quarto. Atarefada, mas na maior parte das vezes bem disposta e com um sorriso que impede qualquer um de reclamar do madrugar. “Vamos está um dia óptimo para a praia! Levantem-se seus preguiçosos! O vosso pai já saiu do banho e está a sair para o trabalho…” Eram normalmente as palavras escolhidas, enquanto nos abria as portadas da janela do quarto. Eu e o meu irmão dormíamos no mesmo quarto. Embora o número 449 da rua 16 fosse uma casa enorme, os meus pais deram abrigo, durante anos a fio, à família que veio do ultramar. Chamavam-lhes “os retornados”, mas sobre eles falarei num outro post. É que há muita coisa a dizer sobre eles… mas a seu tempo.

Após o despertar carinhoso da mãe e dada a espreitadela na janela, era tempo de tirar a remela do olho e comer uma bucha e dois iogurtes que impedissem que a fome aparecesse durante a manhã. Claro que antes de ir para a praia tinhamos sempre que passar pelo supermercado e abastecer. O Gama ou o Novo Horizonte (passo a publicidade) eram as escolhas óbvias. A mãe tinha lá conta corrente e assim não tinhamos que despender nickles para abastecer a mochila com os óptimos “croisants” que o Gama tinha. Eram mesmo fabulosos! Parece que lhes sinto ainda o sabor.

Depois era só descer a 19, virar à direita na 16, seguir até à 7 ou à 9 (dependia se íamos chamar o Panchas, o Zé Miguel, O Miguel Jacinto, ou outro qualquer), virar à esquerda e começar a sentir o cheiro a maresia. Nos dias em que estava vento de oeste o cheiro era fabuloso. De uma intensidade impossível de descrever com o vocabulário que conheço. Por vezes também fazíamos o percurso da rua 19, onde encontrávamos o Peixoto, o Pickles, a Cila ou a Gabi, mas este era menos comum. O destino final era sempre a zona de praia mais a norte de Espinho. Para quem conhece Espinho é aquela zona onde está a esplanada nova (há quem diga que hoje se chama Marginal Miguel Maia e João Brenha, mas para mim será sempre a Esplanada… mesmo a parte nova). A praia de destino dependia do grupo com o qual tinhamos combinado na noite anterior no Esquimó, ou da localização de algum rabo de saia em que estivéssemos interessados. No entanto, entre a Pop Americano, a praia Azul, a Seca norte ou a Seca sul (lê-se Séca) alguma delas tornava-se a feliz contemplada com a nossa presença e um martírio para quem queria fazer praia sossegadamente. Ali não era lugar para isso. Alugassem a barraquita na praia Verde… mais indicada para os “antiquários”! Ali era para a galhofa todo o dia.

Confesso que quando vou à praia, hoje em dia, me admiro como é que conseguíamos passar um dia (era mesmo um dia… das 9 às 21) na praia! Mas entre volley (desporto de eleição em Espinho, como sabem), futebol de praia, rugby, mergulhos, natação, remo nos barcos dos salva-vidas (tinhamos cunha), namoricos (havia sempre uma “camone” ou uma ave rara vinda de Lamas (lhamas no dialecto local) que despertavam o macho latino que havia e, ainda há em cada um de nós, e passeios a armar ao pingarelho com os calções e óculos escuros novos passávamos lindamente o dia. Passavam até depressa demais visto daqui.

No fim do dia, exaustos, recolhíamos a casa. Impreterivelmente a mãe e o pai Bilhas esperavam pela nossa chegada para a janta, Passávamos sempre pela zona de desinfestacão das areias (vulgo mangueira do quintal), antes do banho de água quente e do jantar com toda a família. As conversas normalmente eram sobre o dia de praia e sobre a boa vida que nós tínhamos (sempre achei que o pai Bilhas ficava orgulhoso de nos poder ter dado este prazer de passar dias e dias de verão como este). E se era uma boa vida! Aliás… ainda é! Quem me conhece sabe que é.

À noite reunião no Esquimó. Isto na juventude mais distante. Depois abriu o Tubo de Ensaio, a Última instância, o Spinus, as esplanadas na praia, com especial relevo para o Bombar… se bem que o Esquimó continua lá. Para além de combinarmos o dia seguinte, faziam-se apostas de entradas nocturnas no mar (desde o paredão à praia da Baía), saltavam-se os muros da piscina, namorava-se, roubava-se alguma fruta no quintal do Padre Manuel (Deus perdoa-nos… não se preocupem) e acabava-se sempre por ir para a cave do João Nuno. Este sim um local de culto que um dia destes dará um post interessantíssimo.

E por hoje chega! Não os maço mais com histórias da terra onde as ruas não têm nome.

Publicado previamente no Ante-et-post, mas apropriado para o verão que teima em ficar assim cinzentinho!

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3 Respostas to “Dias de Verão na terra onde as ruas não têm nome…”

  1. sofia. Says:

    Espinho é mesmo assim…
    (Já não me lembro é se são as de nº par as paralelas ao mar ou as impar)
    E a feira às segundas
    🙂

  2. Da Mari Says:

    Do outro lado da rua 16, aqui vai um abraço…
    Até já, “miúdo”. Até sempre…

    http://www.kabinda.org/blogs/careca/index.html

  3. Gil Says:

    Viva Espinho,

    Por muito que seja espinhense de Gema, sempre detestei praia, detesto estar a torrar ao sol.

    Sou um espinhense desnaturado !

    Tens muito jeito para a escrita, consigo vizualizar o que escreves. PARABÉNS

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